Depois de lançar o álbum Galeria e percorrer diferentes regiões de Belo Horizonte com uma série de concertos gratuitos, o Duo Retratos, formado pela soprano Valquíria Gomes e pelo violonista Anderson Reis, inicia um novo desdobramento do projeto. Na próxima segunda-feira, 5 de outubro, os músicos voltam ao Conservatório UFMG para uma apresentação dentro da programação do VI Horizontes, evento acadêmico realizado entre os dias 5 e 10 de outubro.
O retorno acontece apenas uma semana depois do concerto realizado pelo Duo no mesmo espaço, em 29 de setembro, apresentação que marcou o encerramento da circulação iniciada nos centros culturais da capital. Ao longo do projeto, Valquíria e Anderson passaram pelo Centro Cultural Venda Nova, Centro Cultural Urucuia, Centro Cultural Santa Rita e Sesc Venda Nova, levando ao público um repertório construído ao longo de quase uma década de pesquisa, transcrições, estudo e amadurecimento artístico.
No repertório estão obras de compositores brasileiros que aproximam a música de concerto de lendas, personagens, ritmos e imaginários ligados à Amazônia. Voz e violão ocupam o centro dessa narrativa, em uma formação que permite revisitar peças originalmente concebidas para outras instrumentações e revelar novas possibilidades sonoras.
Um álbum construído ao longo dos anos
Lançado em setembro, o álbum Galeria sintetiza parte importante dessa investigação artística. O trabalho não nasceu de uma temporada de gravações ou de uma escolha recente de repertório. Algumas das obras começaram a ser estudadas e transcritas ainda em meados da década passada e atravessaram pesquisas acadêmicas, recitais, projetos e diferentes momentos da trajetória dos músicos antes de chegarem ao registro fonográfico.
Entre as figuras centrais desse percurso está o compositor paraense Waldemar Henrique, cuja produção dedicada às lendas, aos personagens e ao imaginário amazônico despertou o interesse de Anderson durante suas pesquisas de mestrado na UFMG. A aproximação começou com Uirapuru, uma das primeiras obras do compositor transcritas pelo violonista. A partir dela, o repertório abriu caminho para um mergulho não apenas na música, mas também nas histórias, paisagens e referências culturais presentes nesse universo.
Para Anderson, a pesquisa acabou ultrapassando os limites da partitura. O contato com as lendas e com o contexto das obras trouxe novas camadas para a interpretação e para a própria compreensão daquele repertório. A Amazônia deixou de funcionar apenas como tema e passou a integrar a construção artística do projeto, aproximando a dupla de narrativas como as do Uirapuru, do Tamba-Tajá e de outros personagens presentes na tradição amazônica.
Nesse processo, o violão assume papel decisivo. Parte das obras pesquisadas não foi originalmente escrita para a formação de voz e violão e ganhou novas versões a partir do trabalho de transcrição desenvolvido por Anderson. Mais portátil e intimamente ligado a diferentes manifestações da música brasileira, o instrumento permite que repertórios tradicionalmente acompanhados pelo piano adquiram outras sonoridades e circulem por espaços diversos.
Uma parceria que começou na UFMG
A história do Duo Retratos começou por volta de 2010 e 2011, quando Valquíria e Anderson estudavam na Universidade Federal de Minas Gerais. A amizade veio antes da formação artística. Entre aulas, repertórios e o interesse compartilhado pela canção brasileira, os dois começaram a experimentar a combinação entre canto e violão.
Com o passar dos anos, as trajetórias individuais ampliaram aquilo que cada um passou a levar para o Duo. Valquíria se graduou em canto lírico pela UFMG, realizou aperfeiçoamento em ópera na Escola Superior de Música Franz Liszt, em Weimar, na Alemanha, e desde 2019 integra o Coro da Osesp. Anderson aprofundou sua pesquisa sobre repertório, transcrição e música brasileira ao longo da pós-graduação e transformou parte desse percurso também em produção acadêmica e editorial.
A distância, os diferentes projetos profissionais e o passar do tempo não interromperam a parceria. Ao contrário, contribuíram para que os dois retornassem ao repertório com outras referências e maturidade artística. Para Anderson, essa construção aparece inclusive na maneira como dividem o palco: a expectativa é que a amizade possa ser percebida “entre as notas”.
Valquíria também atribui à longa convivência um entendimento construído ao longo dos anos. Conhecer a musicalidade, as escolhas e as formas de reagir um do outro tornou a interpretação cada vez mais orgânica. No Duo Retratos, pesquisa e técnica convivem com uma relação artística desenvolvida paralelamente à amizade.
Da circulação de Galeria ao VI Horizontes
A circulação realizada em setembro levou o trabalho a diferentes públicos da cidade e permitiu que um repertório muitas vezes associado aos espaços tradicionais da música de concerto ocupasse também centros culturais de Belo Horizonte.
Para Anderson, é justamente nessa relação com o público que o trabalho desenvolvido ao longo dos anos encontra sentido. “Um concerto só faz sentido quando encontra ouvidos.” Mais do que apresentar o resultado de uma pesquisa, a dupla busca criar aquilo que o violonista define como um momento de “maravilhamento”, capaz de suspender por alguns instantes a rotina e abrir espaço para a experiência musical.
O concerto realizado em 29 de setembro no Conservatório UFMG acrescentou uma camada simbólica a esse percurso. Foi dentro da universidade que Valquíria e Anderson se conheceram, começaram a construir repertório juntos e deram os primeiros passos do que se tornaria o Duo Retratos.
Agora, o retorno ao Conservatório em 5 de outubro aproxima ainda mais palco e universidade. A apresentação integra o VI Horizontes, evento acadêmico realizado entre os dias 5 e 10 de outubro e ligado ao grupo de pesquisa do qual Anderson faz parte.
A participação do violonista continua no dia 9 de outubro, quando ele retorna à programação para uma atividade dedicada ao seu livro e à pesquisa que acompanha sua trajetória. O movimento ajuda a revelar duas dimensões que caminham juntas no trabalho de Anderson e do próprio Duo Retratos: aquilo que é investigado na universidade encontra novas possibilidades na interpretação, enquanto a experiência musical também alimenta novas perguntas para a pesquisa.
O projeto “Gravação de Álbum e Circulação de Shows em Centros Culturais – Duo Retratos” é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, projeto nº 0602/2024.
Serviço
Duo Retratos no VI Horizontes
Data: 5 de outubro de 2026 (segunda-feira)
Local: Conservatório UFMG
Anderson Reis no VI Horizontes
Apresentação do livro e pesquisa
9 de outubro de 2026




















































































