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O recorde de agosto passou. O alerta dos oceanos, não

Por Dra. Francyne Elias-Piera

Agosto terminou, mas um dos números deixados pelo mês merece continuar em nossa pauta: a temperatura da superfície dos oceanos atingiu níveis nunca registrados para esse período do ano.

Quando o Copernicus Climate Change Service anunciou, em 24 de agosto, que a temperatura média diária da superfície oceânica entre 60°S e 60°N havia chegado a 21,1 °C no dia 22, superando o recorde diário anterior, de 2024, o dado por si só já chamava atenção. Depois, com o fechamento do mês, tivemos uma dimensão ainda mais clara do que aconteceu: agosto de 2026 registrou média de 21,07 °C, a maior já observada para um mês de agosto e igual à maior média mensal registrada anteriormente, em março de 2024. Nos dias 24 e 25, o valor diário chegou a 21,11 °C.

Para quem trabalha há décadas estudando ecossistemas marinhos e antárticos, não é apenas o número que me preocupa. É o que ele representa.

O oceano é uma das grandes engrenagens do clima do planeta. Armazena calor, transporta energia, participa das trocas de umidade e gases com a atmosfera e sustenta ecossistemas dos quais dependem milhões de pessoas. Portanto, quando o oceano muda, essa mudança não permanece dentro do oceano.

E há outro aspecto importante: estamos falando de um recorde ocorrido em agosto.

Normalmente, as maiores temperaturas médias da superfície dos oceanos nessa faixa do planeta são observadas em março. Agosto costuma apresentar um segundo pico, menor. Em 2026, porém, a média de agosto alcançou o mesmo patamar recorde de março de 2024.

Isso precisa ser compreendido dentro de uma transformação que não começou neste ano.

O oceano vem absorvendo grande parte do excesso de calor acumulado no sistema climático. De certa maneira, ele tem funcionado como um enorme amortecedor do aquecimento do planeta. Mas essa capacidade tem consequências.

Uma delas são as ondas de calor marinhas.

Podemos pensar nelas, de maneira simplificada, como algo semelhante às ondas de calor que sentimos em terra, mas acontecendo no mar. Durante determinado período, uma região oceânica permanece excepcionalmente quente. O problema é que os organismos que vivem ali nem sempre conseguem simplesmente se deslocar ou se adaptar na velocidade necessária.

Algumas espécies alteram sua distribuição. Outras podem sofrer impactos na alimentação, reprodução e sobrevivência. Ecossistemas inteiros podem ser pressionados. E aquilo que começa com alterações na temperatura da água pode percorrer cadeias alimentares e chegar também às atividades humanas que dependem diretamente do oceano, como pesca e aquicultura.

O próprio Copernicus chama atenção para o crescimento desse fenômeno: o número global de dias sob condições de ondas de calor marinhas mais que triplicou desde o início da década de 1990.

Há também uma relação que muitas pessoas desconhecem entre aquecimento dos oceanos e elevação do nível do mar.

Quando pensamos em aumento do nível dos oceanos, é comum imaginarmos imediatamente geleiras e mantos de gelo derretendo. Eles são fundamentais nessa equação, mas não são os únicos fatores.

Água aquecida se expande.

É o que chamamos de expansão térmica. Portanto, à medida que o oceano acumula calor, seu volume também aumenta. Para cidades costeiras e pequenas ilhas, compreender esse processo não é uma discussão abstrata sobre um futuro distante.

E onde entra a Antártica?

É uma pergunta que escuto com frequência quando falo sobre aquecimento global dos oceanos.

Os dados que estou mencionando consideram a região entre 60°S e 60°N e, portanto, não incluem diretamente as águas mais próximas do continente antártico. Mas uma das coisas mais importantes que aprendi estudando os ambientes polares é que não existem oceanos verdadeiramente isolados.

As grandes correntes oceânicas transportam água, calor, nutrientes e carbono pelo planeta.

O Oceano Austral, que circunda a Antártica, exerce papel fundamental nessa circulação e na regulação do clima global. É por isso que, quando estudamos a Antártica, não estamos olhando para um mundo distante, desconectado da nossa vida cotidiana.

Estamos estudando uma peça essencial do sistema climático da Terra.

As mudanças nas temperaturas oceânicas também são acompanhadas com atenção nas regiões polares justamente porque podem interferir nos ecossistemas, na circulação das águas e nas interações entre oceano e gelo.

E o El Niño?

Também precisamos falar dele.

Em 2026, o aquecimento das águas do Pacífico equatorial associado ao El Niño contribuiu para elevar as temperaturas oceânicas. O próprio Copernicus relaciona parte das temperaturas excepcionalmente altas observadas neste ano ao desenvolvimento do fenômeno.

Mas atribuir todo esse cenário ao El Niño seria simplificar excessivamente o problema.

O El Niño faz parte da variabilidade natural do sistema climático. O que temos agora é essa variabilidade acontecendo sobre um oceano que já acumula calor em razão do aquecimento global provocado pelas atividades humanas.

São fenômenos que precisam ser compreendidos conjuntamente, mas não confundidos.

O El Niño ajuda a explicar por que determinados períodos ficam ainda mais quentes. Ele não explica, sozinho, a tendência de aquecimento que observamos ao longo das últimas décadas.

O que 21,11 °C realmente significa?

Talvez daqui a alguns meses poucas pessoas se lembrem de que a temperatura média diária da superfície dos oceanos chegou a 21,11 °C em agosto de 2026.

E esse talvez seja justamente o risco de tratarmos recordes climáticos apenas como notícias de um dia.

Um recorde é anunciado. Ganha manchetes. Surge um novo número. Depois seguimos para a próxima notícia.

Mas o oceano não volta ao ponto anterior quando a manchete desaparece.

O dado de agosto precisa permanecer conosco porque não representa apenas água mais quente. Ele faz parte de uma transformação que pode afetar biodiversidade, pesca, segurança alimentar, comunidades costeiras, nível do mar e o próprio funcionamento do sistema climático.

Depois de cinco expedições à Antártica e mais de 25 anos trabalhando com ecossistemas marinhos e polares, aprendi que aquilo que acontece nos lugares aparentemente mais distantes pode chegar muito mais perto de nós do que imaginamos.

O oceano conecta esses mundos.

Por isso, mais importante do que perguntar qual será o próximo recorde é entender quantos sinais ainda precisaremos receber para reconhecer que as mudanças já estão acontecendo.

Agosto passou.

O recorde ficou.

E o alerta que ele nos deixou também deveria permanecer.

Dra. Francyne Elias-Piera é bióloga, doutora em Ciência Ambiental, pesquisadora antártica e presidente do Instituto Gelo na Bagagem. Atua com ecologia marinha e antártica, mudanças climáticas, educação ambiental e divulgação científica.

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